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Reunião ampliada do FCVSA discute a negligência do poder público nos períodos de estiagem ao longo da história

Campos de concentração, grandes projetos governamentais e estratégias de convivência com o Semiárido foram pontos destacados
Carol Dias e Rosa Nascimento - Comunicadoras populares da ASA
Senador Pompeu - CE
12/11/2013
 
“Esta ciranda não é minha só, ela é de todos nós, ela é de todos nós...”. A referida canção, que incitou os/as participantes a se unirem em círculo, deu início à reunião ampliada do Fórum Cearense pela Vida no Semiárido (FCVSA), na tarde do último dia 08, em Senador Pompeu, no sertão central do Ceará.

O primeiro momento foi de socialização dos últimos acontecimentos que tiveram participação do FCVSA. A Caravana Agroecológica e Cultural, realizada em Apodi (RN), e o III Encontro Nacional de Agricultores/as Experimentadores, que aconteceu em Campina Grande (PB) ganharam espaço na plenária, assim como informações sobre a Portaria 99/2013, que regulamenta o Programa de Cisternas e o credenciamento de instituições que desejam executar os programas do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS).

Os 30 anos do Centro de Defesa dos Direitos Humanos Antônio Conselheiro (CDDH-AC), com sede no município de Senador Pompeu (CE), também foram celebrados na ocasião e trazidos na memória dos atingidos pela construção da Barragem do Patú.

“Foi pela causa dos pobres que este órgão nasceu, para combater a injustiça, que sempre o pobre sofreu. Opiniões divididas e a luta pela vida, o Centro fortaleceu”, relacionam os versos de Francisco Antônio, membro da instituição, referente à missão da instituição. “O CDDH-AC foi criado para dar respaldo jurídico ao povo”, complementa o poeta.

No segundo dia (09), foi feito um resgate da história dos campos de concentração no Ceará, destacando o de Senador Pompeu, conhecido popularmente como “curral da fome”, em 1932.
A professora e historiadora Lucineide Neri relatou os fatos que levaram o povo da região, e até de estados vizinhos, a se concentrarem no campo de Senador Pompeu. “No ano de 1932, no governo de Getulio Vargas, houve uma grande seca. Os sertanejos foram obrigados a se deslocarem em busca de sobrevivência. Para impedir a invasão da população afetada pela falta de políticas de convivência com a seca à capital do Estado, como ocorrera em secas anteriores, o governo instaurou campos de concentração em locais estratégicos e espalhou a notícia de que ali havia emprego, alimento, roupa e remédio. Atraídas pela promessa, as pessoas adentravam no campo e eram impedidas de sair”, relata a professora.

O campo de concentração de Senador Pompeu, de acordo com a historiadora, aproveitou a infraestrutura de casarões abandonados pelos ingleses no ano de 1922, construídos e pertencentes na época a inspetorias de Obras Contra as Secas (hoje o DNOCS) para a construção da Barragem Patú.

Uma média de 16 mil sertanejos foram aprisionados no canteiro de obras do Açude Patú, sendo que destes, dois mil morreram por falta de assistência médica, pela fome, sede e o sol escaldante, segundo relatos.

“Foi muito sofrimento, conforme descrevem os/as sobreviventes da época de 1932. Lá teve a morte mais feia que existe. A da fome” lamenta Fram Paulo, comunicador do CDDH e membro do Instituto Casarão. Fram Paulo ressalta ainda que no final da estiagem, no ano de 1933, os sobreviventes voltaram para seus lugares de origem, levando consigo as tristes memórias do campo de dor e sofrimento.

Do martírio coletivo, nasceu o santo coletivo - Do sentimento de piedade e de que o sofrimento purifica e eleva o espírito ao plano de salvação, criou-se no imaginário coletivo a devoção e fé nas almas da Barragem do Patú. Assim, no segundo domingo do mês de novembro, milhares de pessoas fazem devoção indo até o local em procissão. Neste ano de 2013, a mobilização levou a memória do Padre italiano Albino Donatti, que idealizou a caminhada e morreu poucos meses atrás.

A luta pela vida em meio aos grandes projetos 
Durante a retomada das obras da barragem, na década de 1980, mais uma vez centenas de famílias foram impactadas, com a remoção de comunidades, desvalorização das terras e benfeitorias, fato que motivou a organização e mobilização dos/as agricultores/as a reivindicarem seus direitos, até então negados.

Desta forma, os/as participantes da reunião ampliada externaram sua indignação e apoio à luta do povo. “A história nos faz voltar no tempo do Semiárido. O sofrimento deixa duas marcas. Experiência que os agricultores conseguiram adquirir: a estocagem de água, de alimento e de animais. Quando a gente pergunta o que se salvou, as pessoas relatam que alguns animais; outra coisa boa são as lutas, que sobrevivem de alguma forma. Nos alerta para avançar. As obras grandes do governo ainda são aquelas de ‘acabar com a seca’. Vários movimentos têm buscado caminhos para melhorar a qualidade de vida das pessoas. O público ainda é inferior se comparado ao povo que sofre na pele, mas há uma luta”, destaca Francisco Ricardo, conhecido como Ecílio, da Fetraece.

Qual modelo de desenvolvimento?
Diante da questão levantada, Francisca Sena, da Cáritas Regional Ceará, discutiu assuntos pertinentes, como, por exemplo, a ganância excessiva pelo dinheiro e poder. “Uma das questões do capitalismo no nosso país é a questão latifundiária”, disse, destacando suas características:
“Sociedade capitalista – exploração dos recursos ambientais e de mulheres e homens; latifúndio – concentração de terra; agronegócio; exploração, invisibilidade e desvalorização do trabalho das mulheres; fontes de água cercadas nas propriedades privadas; monocultura; uso de agrotóxicos e transgênicos são apresentados como únicas saídas para resolver um problema, que também apresentam suas características: custo elevado – bilhões de reais; favorece elites locais, nacionais e internacionais; amplo apoio dos governantes; viola o direito das famílias e comunidades pobres do campo e da cidade; baixo impacto positivo na vida das mulheres e dos homens das comunidades e provoca relação desigual de poder”.

Sena trouxe como exemplo concreto dos impactos negativos do capitalismo, a localidade Lagoa do Américo, em Carnaubal (CE), que há poucos meses teve suas casas derrubadas em nome do investimento.

Questões para o debate
No finalzinho da tarde, os/as participantes foram indagados com seguintes questões: Que outras situações vivenciamos em nossos municípios? Quem são os principais responsáveis por violar os direitos dos agricultores? Como podemos nos articular enquanto Fórum Cearense para denunciar os casos identificados e assegurar os direitos dos/as agricultores/as?

1 - Articulação para a construção do Lago de Fronteiras, em Crateús; Barragem do Figueiredo – ameaça de morte a uma das lideranças da resistência – Potiretama; canal da integração limoeiro; comunidade de Gravatá; aterro sanitário do Cariri; obras da Copa; especulação imobiliária; grandes projetos;
2 - O governo brasileiro; o Dnocs; latifundiários; imobiliárias;
3 - fortalecer e da visibilidade as iniciativas de produções de agricultores/as pela convivência com o Semiárido; fortalecer ações de mobilização coletiva na promoção de direito; fortalecer a atuação em rede, colocando em prática a parceria que dizemos ter; valorização política do Fórum em todos os níveis; valorizar a comunicação como ferramenta para dar visibilidade às ações e reivindicações; manter a rede informada e discutir as ações a serem tomadas; mobilização e geração de conhecimento. Estas foram as respostas dadas, respectivamente.

“Nossa luta é permanente. É uma construção social, cultural e histórica. A gente precisa romper com esse modelo de desenvolvimento, dinamizar e reavivar a luta para viver melhor”, conclui Sena.