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Cáritas realiza intercâmbio de educação contextualizada em Tamboril


As lágrimas iam até a porta dos olhos, a garganta apertava, mas não era hora de chorar, e de compartilhar um sonho tornando-se cada dia mais real. Foi segurando o choro sem conseguir prender de todo a emoção que foram alimentadas as esperanças de educadores e educadoras de várias cidades do Piauí, Ceará e Bahia por profissionais da educação de Tamboril-CE durante Intercâmbio da Educação Contextualizada realizado neste município, organizado pela Cáritas Diocesana de Crateús (CDC) nos dias 12 e 13/03/2014.

Experienciaram a vivência de um jeito de educar que parte do conhecimento da própria comunidade onde crianças e adolescentes moram representantes da Secretaria Municipal de Educação do Piauí, de várias dioceses e do secretariado da Cáritas Brasileira – Regional Ceará, Escola Família Agrícola Dom Fragoso, do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Aplicada, do Instituto Bem Viver, do Instituto Federal do Ceará, Projeto Dom Helder Câmara (PDHC) das secretarias municipais de educação de Independência, Ipaporanga e Nova Russas, da Rede Brasileira de Educação do Semiárido Brasileiro (RESAB) e sindicatos.

“Para nós é muito gratificante ver que após adotarmos essa maneira de ser em nossa escola os pais participam ativamente, estudantes e ex-estudantes reconhecem esse espaço como deles. Mas uma das grandes angústias nossas é que as avaliações externas não levam em consideração esses nossos avanços e que o Ensino Médio é longe daqui e o ensino continua descontextualizado, sob o risco de desconstruir tudo que avançamos”, compartilhou com olhar lacrimoso a educadora Maria Eurilene Pereira, de 26 anos.

Ela atua na EMEIF Antônio Pereira de Castro, uma das 41 escolas que totalizam 100% da zona rural de Tamboril com essa vivência. “Parece que foi ontem que começamos a mostrar a experiência da Educação Contextualizada para a nova gestão municipal de Tamboril em 2007. Inicialmente forma nove escolas. A partir da iniciativa da prefeitura local apoio inicial do PDHC e RESAB e depois a conquista de corações e mentes de educandas/os, educadoras/es e comunidade como um todo, hoje podemos dizer que estamos num caminho sem volta nessa cidade”, avaliou a irmã Erbênia Sousa, coordenadora da CDC.

Segundo a atual secretária municipal de educação de Tamboril, a professora Graça Farias, a experiência de fé e de cidadania promovida pelo saudoso Dom Fragoso na região fizeram com que muitas lideranças aprendessem a importância de conhecer o chão onde pisam e a partir daí conhecer a realidade na qual estão inseridos rumo à conquista da liberdade. “A gente já concordava com Educação Contextualizada, mas faltava uma forma de sistematizar essas ideias para o ensino regular. De certa forma realizamos o sonho de Fragoso com tais práticas”, comentou Graça. Ela informou que faltam apenas as escolas da sede assumirem a proposta, os próximos desafios da cidade que é modelo para todo o semiárido brasileiro do ponto de vista dessa iniciativa.

EDUCAÇÃO CONTEXTUALIZADA

Segundo Paulo Giovani, assessor da RESAB, Educação Contextualizada não é mais um programa da educação básica, não serve para ser mais uma tarefa, e sim para se tornar uma maneira de ser e pensar a educação, a partir da pesquisa e conhecimento das potencialidades e fragilidades de cada comunidade. Temáticas como gênero, raça e etnia, semiárido e agroecologia são trabalhados em cada bimestre e a partir daí são feitas culminâncias onde toda comunidade participa. “Dessa forma, os pais e as mães participam da vida na escola ao invés de serem chamados apenas para ouvir reclamações dos filhos, e todo conhecimento é compartilhado”, explica Paulo.

As culminâncias tornam-se então um grande evento de cada localidade, agregando sindicatos, comunidades, igrejas, etc. O conhecimento adquirido à partir da pesquisa feita na própria escola levando a mudança de vida das pessoas. Famílias que antes praticavam queimadas e faziam uso indevido da água e não tinham conhecimento de tecnologias de armazenamento passam a não apenas conhecer como a mudar as próprias práticas. “Hoje há famílias que tiram sustento do quintal produtivo e vivem bem melhor do que antes”, afirma Adriano Leitão, coordenador do projeto da CDC que estimula essa maneira de ser, além de Tamboril em Quiterionópolis, Independência, Nova Russas e Ipaporanga.

Segundo ele, atualmente a Cáritas é patrocinada pelo programa Desenvolvimento e Cidadania da Petrobras acompanhando 491 professores e cerca de 6 mil estudantes em 71 escolas. “O nosso sonho é que todas as escolas alcancem a autonomia de Tamboril. Hoje ninguém mais retornará a escola para os moldes em que o ensino valoriza mais as coisas de fora que as daqui, nem reproduzirá estereótipo sobre o semiárido. Ao contrário, dando poder para que a própria população conheça e se envolva com a escola queremos que nesses cinco municípios e depois em outros a população simples exija o direito de ter uma educação que contemple, valorize e ajude a melhorar a vida no campo e na cidade e aprenda a conviver com as dores e delícias de nosso bioma”, concluiu.


Por Eraldo Paulino, assessoria de comunicação da Cáritas Diocesana de Crateús – CE