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Chuva de veneno não! Seminário discute, em Fortaleza, os impactos negativos do uso de agrotóxicos

“O nosso sangue já é todo de veneno”. A agricultora Socorro Guimarães, da comunidade do Tomé, em Limoeiro do Norte (CE), lembrou, durante o Seminário Agrotóxicos e Saúde, a resposta de um jovem agricultor da região da Chapada do Apodi, no Ceará, quando foi questionado por uma pesquisadora se ele não tinha medo de ficar próximo aos materiais utilizados para dispensar agrotóxicos nas plantações. A Chapada do Apodi, no Ceará, é uma das regiões do estado onde a pulverização aérea ainda é prática recorrente nas plantações do agronegócio. Na quarta-feira, 11 de maio, a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará recebeu agricultoras e agricultores, pesquisadores/as, médicos/as, movimentos sociais e deputados/as para debater sobre os impactos negativos causados pelos agrotóxicos na saúde humana, animal e no meio ambiente. A atividade foi realizada pela Assembleia Legislativa do Ceará, o mandato É Tempo de Resistência/Deputado Renato Roseno (PSOL), Movimento 21, Fórum Cearense Pela Vida no Semiárido (FCVSA) e Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST).






O seminário contou com a presença do médico e professor da UFMT, Wanderlei Pignati, que tem reconhecidas pesquisas no tema dos agrotóxicos. Para o pesquisador, a contaminação por conta da pulverização aérea não acontece por acidente. “Não é acidente. Tem vento. De qualquer forma vai levar para um lado e para o outro. Esse negócio de dizer que o vento não leva o veneno para outros lugares além da plantação fere até as leis da aviação”, comentou o professor se contrapondo ao argumento de que a pulverização aérea é um procedimento seguro. Outro tema abordado pelo professor foi a problemática da isenção fiscal para agrotóxicos que são, inclusive, proibidos em países europeus.
Outro alerta feito durante o seminário foi trazido pela também médica e professora Raquel Rigotto. O alerta se deu por conta da possibilidade da pulverização aérea ser usada em zonas urbanas e rurais para despejar o veneno que combate ao Aedes Aegypti. A utilização de aeronaves para aplicações em controle de endemias vem sendo sugerida, desde 2004, pelo Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (SINDAG). Segundo a proposta, a pulverização seria dos mesmos inseticidas utilizados atualmente por via terrestre: o Malathion e o Lambda-cialotrina. O Malathion é considerado pela IARC (Agência Internacional para a Pesquisa sobre o Câncer), desde março de 2015, como provável carcinogênico em humanos, ou seja, apresenta risco de causar câncer.

“Trinta anos de venenos lançados sobre as cidades e as epidemias de dengue, zika e chikunguya só crescem. Após trinta anos jogando o “fumacê” ainda não foi pensada outra política de combate. O que poderia ser feito e não está sendo feito? Universalização do saneamento básico,” afirmou a professora. O exemplo de combate à dengue sem veneno realizado no município de Pedra Branca, no Ceará, foi lembrado por Fernando Carneiro, diretor da Fiocruz no estado. “A agroecologia é uma estratégia de promoção da saúde. É possível controlar os vetores sem veneno. Pedra Branca está a mais de dez anos sem caso de dengue só com controle biológico”, afirmou.


Ainda no seminário foram apresentadas as pesquisas das professoras Miren Uribe, que trouxe dados sobre os casos de câncer infanto-juvenil no Ceará, e ainda a pesquisa da professora e agrônoma Gizeuda de Freitas Souza que constatou a presença de resquícios do herbicida glifosato no ar da zona urbana e rural de Limoeiro do Norte. O glifosato, princípio ativo do herbicida Roundup, também é classificado como provavelmente cancerígeno para humanos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O estado do Ceará pode ser o primeiro a proibir a pulverização aérea de agrotóxicos no Brasil. Tramita na Assembleia Legislativa do Ceará o projeto de Lei nº 18/2015, de autoria do deputado estadual Renato Roseno (PSOL), que pretende proibir a pulverização aérea dos venenos agrícolas. O projeto Zé Maria do Tomé, como é popularmente conhecido, homenageia o líder comunitário da Chapada do Apodi que foi assassinado em abril de 2011.

Para apoiar o Projeto Zé Maria Tomé assine a petição online!

Por Amanda Sampaio (CETRA)