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Agricultores e agricultoras da Paraíba visitam experiências agroecológicas no Ceará


Nesta quarta-feira, 2 de agosto, o Fórum Cearense Pela Vida no Semiárido (FCVSA) recebe uma comitiva de 36 agricultores e agricultoras paraibanos integrantes da Rede de Bancos de Sementes da ASA Paraíba.
Vindos das regiões da Borborema, Cariri, Curimataú, Médio e Alto Sertão Paraibano, estes gestores e gestoras de bancos de sementes vêm conhecer casas de sementes crioulas do Ceará, a tecnologia social chamada Bioágua e os roçados dos grupos produtores de algodão e gergelim agroecológico.



No primeiro dia de intercâmbio, o grupo será acolhido pela comunidade de Aroeiras, em Quixeramobim, onde conhecerá o sistema de reúso de água na casa de Aureliano e Liduína Martins. O Bioágua foi construído no início de 2016 e, desde então, a água que sai da pia e do chuveiro passa pela filtragem biológica de um minhocário e por camadas de madeira, areia e pedras. Ao final, a água está apropriada para irrigar os canteiros de frutas, verduras e legumes do casal.

A produção de Aureliano e Liduína, além de alimentar a família, também é levada para a Feira da Agricultura Familiar de Quixeramobim, que existe há quinze anos. Liduína conta que os alimentos naturais cultivados na região são muito valorizados pelos fregueses e freguesas. “Na feira, as mulheres brigam pelas cenouras pequenininhas que vem daqui”, diz ela.

Há três anos, foi criada a Rede de Agricultores/as Agroecológicos do Sertão Central para agregar produtores e produtoras rurais dos municípios de Choró, Quixadá, Quixeramobim e Pedra Branca. Aqueles/as que decidem abandonar a utilização de agrotóxicos e aderem ao cultivo agroecológico têm o apoio do grupo, tanto na produção, quanto na comercialização.

“O veneno é um vício”, afirma Aureliano e lembra que, no início, seus conterrâneos duvidaram que seria possível plantar sem utilizá-lo. Há mais de trinta anos, Aureliano e Liduína decidiram praticar a agroecologia, encontrar alternativas de cultivar a terra e restaurar a natureza, conhecimento que fazem questão de dividir. “Onde eu vou defendo isso: a política agroecológica é prática, é viver e conviver com nossa mãe natureza, quase morta, para reerguer. O dia-a-dia e sempre ensina alguma coisa nova para a gente.”, diz Aureliano.

Os visitantes da Paraíba conhecerão também a Casa de Sementes Zé Noca, onde estão guardadas variedades crioulas adaptadas ao clima do Sertão Central cearense, como o Feijão Raul, orgulho da comunidade por sua resistência e fertilidade. “A nossa Casa de Sementes nós vamos tornar um exemplo para a nossa região”, diz Aureliano.

Em Choró, município vizinho a Quixeramobim, a comitiva da Paraíba será recepcionada pelos produtores/as de gergelim e algodão na comunidade Riacho do Meio, onde consórcios agroecológicos transformaram a renda de 11 famílias. Cada roçado tem, em média, um hectare de extensão, nele são plantados conjuntamente algodão, milho, feijão e gergelim. Apesar do pouco espaço, as práticas agroecológicas utilizadas ali melhoram a fertilidade da terra e, neste ano, espera-se colher 1.500 quilos de algodão e 800 quilos de gergelim em Riacho do Meio.

O algodão é fornecido para a fabricação dos tênis ecológicos e vendido para a empresa Vert de acordo com o comércio justo, por preço duas vezes maior que o de mercado. O gergelim é transformado em óleo extravirgem e paçoca, produtos comercializados pelo Grupo Sementes do Sertão, formado por jovens da comunidade. Neste ano, entrará em atividade o galpão de beneficiamento de Riacho do Meio, com prensa, moinho e diversos equipamentos para o trabalho com o gergelim.

Antes de aprenderem a agroecologia e o potencial da agricultura familiar, a vegetação era queimada para o plantio de milho e feijão. “A terra estava pedindo nossa ajuda. Se não fossem os consórcios, hoje não produzia nada”, diz Antônio Alberto Benício de Melo, agricultor de Riacho do Meio que colheu no ano passado dez arrobas de algodão. Para proteger suas plantas, ele aplica calda de Nim e urina de vaca, eficazes defensivos naturais.

Será mostrada também a Casa de Sementes Nova Conquista dos Agricultores (as) Familiares do Riacho do Meio, fundada em 2002, e que guarda variedades centenárias de milho e também de feijão, arroz, fava, algodão e gergelim. O trabalho de multiplicação das sementes permitiu que, no ano passado, a comunidade fornecesse sementes crioulas para o Programa Sementes do Semiárido.

O encontro entre a Rede de Sementes da Vida, do Ceará, e Rede de Sementes da Paixão, da Paraíba, é uma oportunidade dividir aprendizados sobre a luta pela preservação da biodiversidade do Semiárido.

A agrônoma Ana Cristina Souza, integrante da Comissão de Sementes do Fórum Cearense (FCVSA), ressalta que o Ceará tem a mostrar diversas organizações e experiências dos agricultores/as e, na Paraíba, as comunidades desenvolveram campos de experimentação, onde comprovaram a qualidade das sementes crioulas. Há também a luta para que as variedades tradicionais sejam incluídas nas políticas públicas para o Semiárido. “Assim como o Ceará, a Paraíba vem criando estratégias para que as sementes crioulas sejam distribuídas pelos programas dos governos”, afirma.