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Festival reúne guardiãs e guardiões de sementes crioulas do Ceará




Do quilombo Serra da Rajada, em Caucaia, o agricultor Evanilo Martins trouxe as sementes de Coentro-do-Maranhão, Mastruz, Colorau, Algodão-Inteiro. Lá da cidade de Saboeiro, na Região Centro-Sul do Ceará, Dona Maria de Jesus veio trazendo as sementes de Fava-Branca, Feijão Raio-de-Sol guardadas na Casa de Sementes Imbuzeiro. Antônia Marta, a Marcinha, trouxe da comunidade Bom jardim, em Quixadá, muitas sementes de flores, de Milho-Preto e de Fava-Capetinha que ela cultiva em seu pequeno roçado.


“Cada um foi trazendo um tiquinho, um tiquinho...olha aí o resultado! Olha o tanto de gente e de sementes!”. O resultado que faz Dona Maria Ana da Silva se admirar é o II Festival Cearense das Sementes da Vida e o IV Encontro Estadual de Agricultores/as Experimentadoras/as, que neste ano reúne em Quixeramobim 89 integrantes da Rede de Sementes da Vida, articulação estadual formada no Ceará.

Maria Ana da Silva veio do Cariri para encontrar companheiros e companheiras e trocar com eles/as espécies tradicionais do seu lugar e de sete microrregiões cearenses: Vale do Curu e Aracatiaçu, Fortaleza, Vale do Jaguaribe, Sertão Central, Sobral, Centro Sul e Cariri. Um punhado de Milho-Branco já é suficiente para Maria Auxiliadora plantar algumas fileiras em seu roçado em Aracoiaba e colher muitas espigas mais. Em retribuição, ela divide as sementes de Milho-Vermelho, que ela garante: tem um sabor doce e muito saboroso.

“Em cada microrregional, as sementes crioulas representam a diversidade. De sabores, de gostos, do trabalho das mulheres. Todos e todas somos sementes”, declarou Andrea Sousa integrante do Fórum Cearense Pela Vida no Semiárido.

Os /as participantes demonstraram a alegria em de participar da Rede de Sementes da Vida. “A Rede trouxe muita coisa boa, trouxe a união deste povo todo. Se não fosse a Rede, a gente não estaria aqui organizado”, afirma Dona Maria Ana. “Essa é uma rede de união entre trabalhadores/as da agricultura familiar. Busca discutir e conversar sobre as sementes crioulas para que as sementes não se acabassem, não morressem”, afirma o agricultor Francisco de Quixeramobim.

O debate inicial do Festival de Sementes destacou o afeto das famílias agricultoras pelas sementes crioulas e o protagonismo delas na preservação ambiental. “Quem faz acontecer são os agricultores e agricultoras. São vocês que produzem alimentos , guardam sementes e constroem, na prática, a agroecologia”, afirmou Marcos Jacinto, coordenador executivo da Articulação Semiárido Brasileiro no Ceará. 

Foi apontado também o potencial da Rede de Sementes da Vida para intervir nos programas sociais de distribuição de sementes para agricultura familiar, que entregam somente sementes híbridas, de qualidade inferior às sementes crioulas e, quando plantadas, podem contaminar as variedades tradicionais. “O próprio Estado coloca em risco a biodiversidade. A Rede é um espaço onde podemos construir estratégias a partir da sabedoria dos agricultores e agricultoras”, afirmou Jacinto.

No início da tarde,  aconteceu a mesa Sementes do Semiárido: o avanço do agronegócio e dos transgênicos e dos e dos desafios para a produção Agroecológica. Na mesa, a participante Maria Ana da Silva conhecida por Dona Ana, agricultora e feirante, abriu a discussão relatando as mudanças em sua vida após a vinda das tecnologias sociais. “Eu tenho um pote de beber água, que é minha cisterna. Um dos melhores projetos que a ASA fez foi o das cisternas” afirma Dona Ana.


“Gostei em toda a minha vida de repassar conhecimento”  fala Ananias Alves agricultor de 72 anos, um dos participantes da mesa. “As pessoas pensam no imediatismos, pensam em produzir rápido, porque os invernos são cada vez mais curtos e foram perdendo as sementes nativas. A ponto de hoje termos essa casa de sementes com pequenos pontos que fomos pegando em encontros comunitários.”

Para informar sobre as tecnologias sociais e os avanços dos programas da ASA, foi convidado Antônio Barbosa,coordenador do Programa Uma Terra e Duas Águas. “Estamos em 2017, lembrando que, em 1999, as pessoas riam quando se falavam em um milhão de cisternas e hoje temos isso”. Ele salienta que o atual cenário político exige uma atenção e posicionamento: “a gente precisa ir pra rua, denunciar inclusive o a aumento da violência do campo”.

Veja o vídeo: