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Fórum Cearense pela Vida no Semiárido lança rede estadual para preservação das sementes crioulas

A Rede agrega mais de duas mil famílias guardiãs de sementes crioulas em todo o Ceará. (foto:Comunidade Lagoinha em Itapipoca./Amanda Sampaio) 

Alimentação garantida para as famílias rurais, autonomia para agricultores e agricultoras plantarem seus roçados e preservação da biodiversidade da caatinga. O acesso a sementes crioulas proporciona todas estas conquistas, por isso tem sido uma prioridade para os movimentos sociais do campo há pelo menos trinta anos. Em todo o território do Semiárido cearense, há redes, fóruns instituições e articulações que incentivam a organização de casas de sementes comunitárias nas comunidades rurais onde se pratica a agroecologia.

Neste ano, estes grupos atuantes no Ceará passam a integrar a Rede de Sementes da Vida, criada para aproximar as mais de 200 casas de sementes do estado e assim intensificar a organização social e a formação crítica dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.

“As casas de sementes são pensadas, não só como espaço para guardar sementes, mas um espaço político onde uma comunidade se reúne para discutir as várias dinâmicas comunitárias”, destaca Ana Cristina Souza, integrante da Comissão de Sementes do Fórum Cearense Pela Vida no Semiárido (FCVSA).

A intenção da Rede de Sementes da Vida é adaptar-se às ações que os vários grupos já desenvolvem em suas regiões, como as feiras, festivais, encontros e formações, e ser mais uma aliada à agricultura familiar. “É uma forma de fortalecer a autonomia dessas famílias, que organizadas em torno das várias sementes, garantem produção de alimentos, geração de renda e incidência política”, argumenta ela.

Desde a adesão ao Programa Sementes do Semiárido, em 2015, o reconhecimento da tradição existente entre as famílias agricultoras em perpetuar as plantas crioulas tem sido uma prioridade para o Fórum Cearense. Em muitos lugares do Ceará, há guardiãs e guardiões de sementes, mantendo grande diversidade delas em suas comunidades. Cientes disto, as organizações pretendem aproximar estas pessoas.

“A Rede de Sementes da Vida amplia o debate em favor da agricultura familiar, fortalece o intercâmbio de sementes e de experiências existentes no estado. Acima de tudo promove a cooperação entre as casas de sementes, para maior visibilidade das sementes crioulas e sua importância para a sustentabilidade e autonomia dos agricultores e agricultoras”, afirma Marcos Jacinto, coordenador do Fórum Cearense Pela Vida no Semiárido.

As 122 Casas de Sementes construídas no Ceará pelo Programa Sementes do Semiárido nos últimos três anos fizeram surgir uma aliança entre mais de duas mil famílias guardiãs de sementes crioulas. Hoje, essas pessoas valorizam o cultivo tradicional e protegem as sementes naturais da contaminação por transgênicos.

Nos quilombos, nas aldeias e nas comunidades rurais, os sócios e sócias de Casas de Sementes foram encorajados a reviver as tradições alimentares e recuperar as variedades desaparecidas de milho, feijão, fava, arroz, entre outras. Contrárias ao plantio que davasta, queima e contamina a terra, estas pessoas buscam alternativas de cultivo favoráveis ao meio ambiente. Agora vinculadas à Rede de Sementes da Vida, as comunidades encontrarão o estímulo e aprendizado necessários para realizar este objetivo. 

O Fórum Cearense Pela Vida no Semiárido está presente nas microrregionais de Fortaleza, Sobral, Tianguá, Crateús, Iguatu, Sertão Central, Cariri, Limoeiro e Itapipoca. Em cada território, há Organizações Não Governamentais (ONGs), Organizações Sociais de Interesse Público (OSCIPs), pastorais sociais, cooperativas e Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares que apoiam comunidades rurais e acompanham as atividades das casas de sementes crioulas.

As reuniões para cuidar, organizar e multiplicar os estoques de sementes crioulas têm sido momentos de formação cidadã, com debates sobre as políticas públicas direcionadas à população rural e as consequências do contexto político atual no Brasil, que têm prejudicado as famílias do campo. A participação dos sócios e sócias nas casas de sementes também concede a documentação útil para a comprovação do trabalho agrícola.

Esta experiência de organização comunitária fez surgir, em várias cidades cearenses, feiras da agricultura familiar, onde são vendidas as variedades tradicionais de legumes, verduras, frutas e ervas medicinais cultivadas sem nenhuma contaminação química por produtores e produtoras rurais comprometidos com agroecologia e a preservação ambiental. “Guardiões e guardiãs das sementes crioulas têm empreendido resistência e comprometimento no fortalecimento da agroecologia e na defesa da agrobiodiversidade do Semiárido cearense”, defende o coordenador do FCVSA.

II Festival das Sementes e o IV Encontro de Agricultores/as Experimentadores/as
O Fórum Cearense Pela Vida no Semiárido (FCVSA) realizará, nos dias 17, 18 e 19 de agosto, o segundo Festival das Sementes e o quarto Encontro Estadual de Agricultores/as Experimentadores/as na cidade de Quixeramobim (CE).

Os dois eventos reunirão mais de 100 participantes, entre representantes da Comissão Pastoral da Terra (CPT), do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional do Ceará (Consea), Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Ceará (Fetraece), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocuz) entre outras entidades e organizações.

Cerca de 40 trabalhadores e trabalhadoras rurais também virão de todas as regiões do estado e participarão de debates e palestras sobre “Ameaças à agrobiodiversidade do Semiárido: agrotóxicos e transgênicos”; “Povos tradicionais como guardiões da agrobiodiversidade”; “Convivência com o Semiárido e Políticas Públicas” e “Agroecologia e Território”, os quatro principais temas que serão mediados no evento.

As mudanças propostas na Lei Estadual dos Agrotóxicos facilitam a aplicação de veneno nas plantações e a produção massificada de plantas transgênicas pode contaminar as variedades de sementes naturais que vêm sendo selecionadas pelas famílias agricultoras há décadas. Estes fatores de risco e as estratégias de resistência a eles serão analisados nos debates.

“Os riscos de contaminação das sementes crioulas e de erosão genética desse patrimônio aumentam, tanto pela produção de variedades comerciais de milho transgênico das grandes empresas, quanto pela distribuição de sementes não adaptadas às realidades locais pelos programas governamentais”, afirma a agrônoma Ana Cristina Souza, integrante da Comissão de Sementes do FCVSA.

Nos intercâmbios, os grupos visitarão três comunidades: Riacho do Meio, em Choró, onde conhecerão grupo de jovens Sementes do Sertão e a sua experiência no beneficiamento de sementes; Aroeiras, em Quixeramobim, e serão recebidos por Aureliano e Liduína Martins, integrantes da Casa de Sementes Zé Noca; Na comunidade Bom Jardim, em Quixadá, a experiência das mulheres na produção agroecológica e preservação das Sementes da Vida será o foco do encontro.

O Festival de Troca de Sementes encerra a programação com a mostra e partilha das variedades crioulas específica de cada região. “Esses momentos são importantes para que essas famílias resgatem e percebam a grandiosidade de serem guardiãs dessa diversidade genética que são as sementes crioulas. Com a guarda de sementes e as práticas agroecológicas vai se formando um movimento de resistência da agricultura familiar dentro do semiárido”, ressalta Ana Cristina Souza.


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